Reciclagem de lixo eletrônico na USP aproveita até último parafuso de PCs antigos
JULIANA CARPANEZ||Do UOL Tecnologia
Monitores descartados no Cedir (Centro de Descarte e Reuso de Resíduos de Informática)
Se você está familiarizado com o conceito de reciclagem, já sabe que a
coleta seletiva do lixo deve ser feita em latas com cores diferentes:
verde (vidro), amarelo (metal), vermelho (plástico) e azul (papel).
Apenas quatro divisões, no entanto, estão longe – muito longe -- de
atender às necessidades da reciclagem de eletrônicos. Foi isso o que
descobriram profissionais da Universidade de São Paulo (USP), após
iniciar em dezembro de 2009 um projeto de coleta de lixo tecnológico. A
iniciativa, ainda restrita à USP, está prevista para ser aberta ao
público em 1º de abril.
No chamado Cedir (Centro de Descarte e Reuso de Resíduos de
Informática), que conta com cinco funcionários e teve investimento
inicial de R$ 250 mil, três técnicos trabalham para desmontar toneladas
de equipamentos. Essas peças -- que vão desde cobiçadas placas com fios
de ouro até parafusos -- serão utilizadas em computadores
remanufaturados ou vendidas para empresas de reciclagem de materiais
específicos.
Para isso, é importante fazer uma triagem daquilo que ainda funciona,
além de separar os diferentes tipos de cabos, plásticos e metais, entre
outros elementos que compõem um computador. As placas, por exemplo, têm
diferentes quantidades de metais (alguns deles preciosos), o que torna
seu valor de mercado variável. Já os cabos podem conter cobre, zinco,
alumínio e até vidro, dependendo da função para a qual foram fabricados.
No meio desse lixo, o técnico de manutenção eletrônica André Rangel
Souza monta computadores com peças usadas. “É difícil conseguir uma
memória RAM de 1 GB funcionando. Mas posso chegar a essa mesma
capacidade juntando quatro pentes de 256 MB”, exemplifica. Seu trabalho
exige paciência. “Esse disco rígido está bom, mas falta a placa. Até
encontrá-la, o HD vai ficar parado aqui, neste pilha”, explicou ao
UOL Tecnologia. “Uma hora a gente encontra a placa certa."
Técnico de manutenção eletrônica André Rangel Souza, do Cedir, desmonta máquinas doadas e monta computadores com peças usadas
Os PCs remanufaturados, que serão emprestados a ONGs até voltarem ao
Cedir para o descarte, têm gravador de DVD, placa de rede, de vídeo, 120
GB de capacidade de armazenamento, 512 MB de RAM, monitor, teclado e
mouse. Dez máquinas dessas já foram montadas no local e estão prontas
para serem usadas em iniciativas como as de inclusão digital.
Aqueles que quiserem levar seus eletrônicos usados para o centro, a
partir de 1º de abril, devem antes agendar a visita pelos telefones (11)
3091-6455 ou (11) 3091-6454 – os funcionários já respondem às dúvidas
dos interessados pelo e-mail cedir.cce@usp.br. A coleta refere-se apenas
ao lixo eletrônico de pessoas físicas; não serão aceitos equipamentos
de empresas.
5 toneladas, R$ 1.200
A ideia da criação do centro de descarte surgiu depois que
funcionários do Centro de Computação Eletrônica (CCE) da USP fizeram a
coleta do lixo eletrônico existente dentro do próprio CCE, em meados de
2008. Na ocasião, os cerca de 200 funcionários do centro também levaram
equipamentos de suas casas, e o resultado foram 5 toneladas de produtos
descartados.
Quando ofereceram esse lixo para empresas de reciclagem, eles se
assustaram ao descobrir a quantia paga por todo o montante: apenas R$
1.200.
“As empresas de reciclagem trabalham com um único tipo de
material. Se o foco for metais preciosos, ela não vai se interessar em
pagar por todo o plástico dos computadores descartados”, explica Tereza
Cristina Carvalho, diretora do CCE
“Percebemos que havia algo errado nesse mercado e, em janeiro de
2009, cinco pesquisadores do MIT [Massachusetts Institute of Technology]
vieram ao Brasil para nos ajudar a identificar o problema”, contou ao
UOL Tecnologia Tereza Cristina Carvalho, diretora do CCE. “A questão é
que as empresas de reciclagem trabalham com um único tipo de material.
Se o foco dessa organização for metais preciosos, por exemplo, ela não
vai se interessar em pagar por todo o plástico dos computadores
descartados”, explicou.
Foi então que se pensou em montar um centro que separasse os
componentes, para que eles fossem reutilizados e vendidos de forma
independente. Tereza afirma que um computador desmontado pode valer de
R$ 24 a R$ 40 (contra R$ 1,2 mil de 5 toneladas de equipamentos que não
estavam adequadamente separados). Completo, cada PC pesa cerca de 10 kg.
Quando o centro for aberto ao público, a estimativa é receber de 500 a
600 máquinas por mês, e o dinheiro arrecadado com a venda será usado
para a manutenção do próprio Cedir.
Tamanho do problema
A organização não governamental Greenpeace estima de 20 a 50 milhões de
toneladas de lixo eletrônico são geradas no mundo a cada ano. Ainda de
acordo com a ONG, o chamado e-lixo (e-waste, em inglês) responde hoje
por 5% de todo o lixo sólido do mundo, quantia similar à das embalagens
plásticas. Com a diferença de que, quando descartados de maneira
inadequada, os eletrônicos podem ser mais nocivos.
Esses equipamentos contêm centenas de diferentes materiais – um
celular, exemplifica o Greenpeace, tem de 500 a 1 mil componentes
diferentes. Na composição de muitos deles há metais pesados, como
mercúrio, cádmio e chumbo, que podem poluir o ambiente e prejudicar a
saúde das pessoas. Para ficar longe do problema, muitos países ricos
exportam seu lixo eletrônico para nações pobres,
como indica este mapa.